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Grupo25: Respeito a diversidade

Fonte: Entrevista para o Boletim CRC/SP nº 155 /Jun/Jul/Ago de 2005
Órgão Informativo do conselho regional de contabilidade do estado de São Paulo


Já pensou ter um filho ou uma filha em idade escolar com algum tipo de deficiência e não encontrar escola que aceite a criança, pois ela está “fora dos padrões?”.

Apesar de toda criança ter seu Direito à Educação garantido, na prática, são raras, quase inexistentes, as escolas que aceitam o desafio de ter um aluno portador de algum tipo de deficiência. Foi exatamente desta dura realidade que surgiu o GRUPO 25.

O Grupo 25 é uma organização não-governamental formada há cinco anos por familiares de pessoas com deficiência. Mas, na verdade, seu trabalho começou informalmente em 1997, quando um grupo de pais, insatisfeitos com o quê o mundo oferecia de oportunidades para seus filhos, se juntou para garantir a participação ativa das pessoas com deficiência no exercício da cidadania.

Como parte do projeto do CRC Social, que desde o ano passado vem incentivando os Contabilistas a orientar seus clientes no que se refere ao cumprimento da legislação que dispõe sobre a Política Nacional para a Integração da Pessoa Portadora de Deficiência, nesta edição o Boletim CRC SP conversou com o pessoal do GRUPO 25, que trabalha, em especial, pela inclusão escolar das crianças com algum tipo de deficiência. Abaixo, a entrevista do GRUPO 25 à nossa equipe de reportagem.

O que vem a ser exatamente inclusão escolar?

A inclusão escolar é um movimento que garante a todas as crianças, com deficiência ou não, o direito de ser recebidas e ter um ensino de qualidade em qualquer escola regular, pública ou particular. Na prática, é uma grande oportunidade para que a escola redefina seus papéis para um sistema voltado à construção da cidadania, livre de preconceitos, que reconhece a diversidade humana, que ensina seus alunos a valorizarem as diferenças através da convivência, formando gerações mais preparadas para a vida e, principalmente, onde todos têm possibilidades de aprender.

Como seria uma sociedade inclusiva?

Uma sociedade inclusiva é uma sociedade para TODOS, que valoriza a diversidade humana e respeita as diferenças individuais em suas mais variadas formas de manifestação. Nela aprende-se a importância de pertencer, conviver, contribuir e construir um mundo de oportunidades reais para TODOS, onde cada cidadão exerça o direito de contribuir, dignamente, com seu melhor talento para o bem comum. Na sociedade inclusiva somos responsáveis pela qualidade de vida do nosso semelhante, por mais diferente que ele seja ou nos pareça ser.

Quais as principais barreiras/obstáculos enfrentados pelas crianças em idade escolar com algum tipo de deficiência?

Além das barreiras arquitetônicas, de comunicação e pedagógicas, como, por exemplo, a falta de estratégias de práticas de ensino escolar, as barreiras atitudinais são as que causam mais indignação; é a falta do desejo, da vontade, da responsabilidade, da maioria dos educadores, de protagonizar a transformação da educação, de respeitar o ritmo e valorizar a forma de aprendizado de cada aluno, de acreditar em seus potenciais e de enxergar o ser humano antes da deficiência.

E para os pais destas crianças com deficiência, qual o caminho a seguir?

Como para qualquer filho, com ou sem deficiência, cabe aos pais a responsabilidade pela qualidade da vida dos filhos. O primeiro passo, para que a criança com deficiência seja feliz, é acreditar sempre, enxergar as potencialidades, dar autonomia, proporcionar oportunidades e independência, ouvir seus desejos, nunca subestimá-los, muito menos segregá-los, dar a possibilidade de conviverem sempre junto à sociedade, deixá-los crescer curtindo todas as fases, ensinar-lhes o valor das derrotas e das frustrações, enfim, prepará-los para a vida. É imprescindível que lutem pelos seus direitos para que, no futuro, eles possam fazê-los por si mesmos.


O que falta às pessoas entenderem, de uma vez por todas, para que essa realidade permeada por preconceitos mude?

O preconceito é conseqüência da desinformação, do desconhecimento, pois é criado um pré-conceito por não conhecer. A partir do momento que as pessoas com deficiência fizerem parte da sociedade de fato,
nas escolas, nos clubes, nos escritórios, no comércio, nos condomínios, nas "baladas", elas se tornarão visíveis e as pessoas sem deficiência passarão a ter a oportunidade de conviver e é unicamente através dessa convivência que o preconceito será desconstruído. É a partir do momento em que as pessoas, com ou sem deficiências, forem respeitadas como seres humanos, diversos e pertencentes à espécie homos sapiens, que o preconceito mudará, mudará para RESPEITO.

Qual a missão do Grupo 25?

O Grupo 25 tem como missão disseminar o conceito da ética da diversidade por meio da informação, sensibilização, formação e posicionamento jurídico e político, a fim de garantir os direitos e deveres das pessoas com deficiência na construção da sociedade para TODOS, com base na resolução 45/91 da ONU e na Convenção Interamericana para Eliminação de todas as Formas de Discriminação contra as Pessoas Portadoras de Deficiência. É através de projetos que atuamos junto à sociedade. É importante destacar que a realização desse trabalho é mantida através de doações e parcerias.

Por que, em especial, as escolas particulares, na sua maioria, não querem ou não se sentem preparadas para ter alunos com algum tipo de deficiência ou fora do padrão considerado "normal" de comportamento chegando, muitas vezes, até mesmo a se recusar a aceitar crianças superdotadas?

As escolas recusam, porque não se sentem preparadas e elas não se preparam, exatamente porque recusam. Isto é, nenhum ser humano se prepara para algo que não existe e, enquanto as crianças "despadronizadas" não existirem dentro da escola, elas nunca se sentirão preparadas. Na verdade, essas crianças desestabilizam a estrutura organizacional das escolas, criando questionamentos que incidem na grande transformação pela qual a educação está passando e toda mudança é um desafio, que gera medos, dúvidas e muito trabalho. Porém, o que não falta é acesso às informações através de organizações, livros, cursos e a Cartilha do Ministério Público Federal, o que emperra realmente a inclusão, é a falta de vontade da maioria dos professores e dirigentes de escolas.

É possível educar, juntas, na mesma sala de aula, crianças sem e crianças com deficiência? De que maneira?

Sim, sem dúvida é possível e isso está comprovado e garantido por lei, pois a educação é um direito fundamental de qualquer criança, com ou sem deficiência. Segundo o artigo 205 da nossa Constituição, a educação deve visar ao pleno desenvolvimento humano e ao preparo para o exercício da cidadania. Portanto, para propiciar o pleno desenvolvimento, é condição imprescindível que as diferenças humanas estejam cada vez mais desveladas e presentes nas salas de aula.

O que se espera do IV Encontro da Mídia Legal - Universitários pelas Políticas de Inclusão, que vai acontecer em agosto na USP?

Será a 1ª vez que o encontro acontecerá em São Paulo, paralelamente ao do Rio de Janeiro. O Mídia Legal visa capacitar 15 universitários como Agentes da Inclusão, para atuar como multiplicadores e incorporar as reflexões apresentadas, em suas decisões cotidianas e, principalmente, profissionais. A partir do Encontro, é elaborado e publicado um Manual, que é distribuído para a mídia e formadores de opinião. Durante os quatro debates propostos, espera-se alcançar um número cada vez maior de universitários, profissionais, educadores e a sociedade em geral, tornando-os mais informados e mobilizados para as questões relacionadas às "políticas de inclusão". Até 2004, já foram formados, 45 jovens como Agentes da Inclusão e distribuídos 6.100 manuais.

Para a ONU, 2010 é a data-limite para uma sociedade para TODOS. Faltam apenas 5 anos. Vai dar tempo de atingir essa meta até lá?

Atingir essa meta é o que toda a sociedade deseja com a maior brevidade possível. Muitos avanços foram dados. Há, sim, um grande movimento social, entretanto, será muito difícil alcançá-la em cinco anos. A inclusão não precisa mais ser discutida, até porque é uma questão de direito, ela precisa ser praticada. A legislação existe e contempla a todos, precisamos cobrar, exigir nossos direitos e cumprir nossos deveres.

De que maneira, os Contabilistas e a comunidade em geral podem contribuir para a construção efetiva de uma sociedade verdadeiramente
inclusiva?

Para a construção de uma sociedade verdadeiramente inclusiva, é imprescindível que os Contabilistas e a comunidade em geral, se conscientizem de que as pessoas com deficiência e, também, todas aquelas que se encontram em situação de vulnerabilidade, existem, são seres humanos e capazes, têm direitos e deveres, fazem parte da sociedade e podem contribuir para com a mesma, com seus talentos.

As portas terão que se abrir e as oportunidades terão que surgir para que TODAS as pessoas tenham seu espaço, vivam com dignidade e sejam respeitadas, exatamente, pelo o que elas são.

 

 
 
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