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Outro Olhar
Segundo o Censo Escolar 2004, apenas
3,6% estudam na mesma sala que os demais alunos na instituição
particular.
Portadores de deficiência
são barrados em escolas privadas.
Autor: Antônio Gois
- Da Sucursal do Rio
As escolas privadas brasileiras
resistem a incluir alunos portadores de necessidades especiais em
salas comuns, como propõe a legislação brasileira.
É o que mostram dados do
Censo Escolar 2004. Do total de 243 mil alunos de educação
especial em escolas privadas, apenas 3,6% estão estudando
na mesma sala de aula que os demais alunos. Com menos recursos,
as escolas públicas conseguem fazer mais: nelas, a porcentagem
de alunos incluídos em classes regulares chega a 58%.
Dados obtidos pela Folha junto ao
Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais), do
MEC, mostram que essa resistência é maior de acordo
com o tipo de necessidade do aluno.
Se o estudante tem deficiência
mental, a chance de ele estudar na mesma classe que outros alunos
na rede privada é quase nula: apenas 1,7 estão nessa
situação. Para deficientes físicos, a realidade
é quase a mesma: apenas 2% estão incluídos.
Na rede pública, esses índices são, respectivamente,
de 44% e 43%.
Segundo o censo, há no Brasil
567 mil alunos na educação especial no ensino básico
(que inclui fundamental e médio). Nesse grupo estão
incluídos cegos, surdos, deficientes físicos e alunos
superdotados, entre outros.
A maior parte desses estudantes
(57% do total) estão em escolas públicas. Na rede
privada, o tipo de atendimento mais comum é feito por escolas
filantrópicas especializadas em lidar com algum tipo de deficiência,
onde praticamente não há integração
entre portadores de necessidades especiais e os demais alunos.
Na mesma linha da legislação
de países desenvolvidos, a LDB (Lei de Diretrizes e Bases
da educação brasileira) não obriga que todos
os estudantes com necessidades especiais sejam incluídos
em classes regulares, mas deixa claro que essa é a alternativa
preferencial. O problema é que, na rede privada, essa preferência
praticamente inexiste.
Quando pais de crianças portadores
de algum tipo de deficiência tentam matricular os filhos em
colégios particulares, ouvem com freqüência como
resposta a alegação de que as escolas não estão
ainda preparadas para incluir esses alunos.
Foi essa a resposta que Cristiane
Roncon, 35, ouviu quando tentou matricular sua filha Lívia
Roncon Freitas, 6, portadora de síndrome de Down, em duas
escolas privadas diferentes. A gente sempre ouve que eles
não estão preparados ou que não será
uma boa opção para a criança estudar lá.
Se você é um pouco menos informado, acaba convencido
disso, mas muitos pais se esquecem que têm o direito de matricular
o filho onde quiser, diz ela.
Rosane Lowenthal, presidente da ONG Grupo 25 entidade especializada
na inclusão de pessoas com algum tipo de deficiência
na sociedade -, critica a postura das escolas privadas. Elas
acham que a lei tem que ser cumprida apenas pela rede pública
e usam artimanhas como fazer testes para saber se o aluno está
no mesmo nível dos demais para negar a matrícula.
Há um preceito velado os pais erram ao não levar essas
recusas à Justiça, afirma Lowenthal.
Nenhuma matrícula deve
ser negada em razão de deficiência. Isso é discriminação
contra pessoas com deficiência e está previsto no decreto
3.956/2001, que promulgou a Convenção Interamericana
para a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação
contra as Pessoas Portadoras de Deficiência, confirma
a secretária de Educação Especial do MEC, Claudia
Pereira Dutra.
O presidente do Inep, Eliezer Pacheco,
afirma que alunos com necessidades especiais têm desempenho
melhor quando incluídos: Todas as avaliações
demonstram que as crianças com necessidades especiais evoluem
muito mais rapidamente quando estão incluídas em classes
regulares. Essa inclusão é também positiva
para os demais estudantes, que passam a encarar a diversidade com
mais naturalidade.
Para Claudia Werneck, presidente
da ONG Escola de Gente, diz que, na teoria, quase todas as escolas
se dizem a favor da inclusão e do respeito à diversidade,
mas isso raramente acontece na prática: A vida inteira
nos ensinam a discriminar as pessoas em função de
qualquer diferença. A inclusão tem que ser feita de
maneira urgente não apenas para as famílias de deficientes,
mas para que as escolas melhorem seus índices de ética
e de aprendizado nas relações interpessoais.
José Antonio Teixeira, presidente
da Federação Nacional das Escolas Particulares, afirma
que os baixos índices de inclusão na rede privada
são explicados, em parte, por causa de um movimento
natural dos pais de procurar uma instituição pública,
já que, em geral, famílias com crianças portadoras
de necessidades especiais já têm um aumento de seus
custos no dia-a-dia.
Ele afirma, no entanto, que essa
mentalidade de não aceitar a inclusão em escolas privadas
está mudando. Os portadores de deficiência física,
auditiva ou visual já são francamente aceitos na rede
privada. O mesmo não acontece no caso de portadores de síndrome
de Down, que exige mais preparo do professor e da escola.
Teixeira reclama da formação de professores: Não
conseguimos encontrar no mercado esse profissional preparado para
lidar com alunos com necessidades especiais. As universidades não
o estão preparando.
Inclusão precisa de qualidade.
Apesar de comemorarem o crescimento
do número de alunos com necessidades especiais incluídos
em escolas públicas, especialistas cobram mais qualidade
no atendimento.
O fato de mais alunos estarem
incluídos na rede pública não quer dizer que
o atendimento seja de qualidade. O aumento da inclusão na
rede pública é importante e indica um caminho, mas
ele não diz se a criança está realmente tendo
um atendimento de qualidade, afirma Claudia Werneck, da ONG
Escola de Gente.
A secretária de Educação
Especial do MEC, Cláudia Pereira Dutra, reconhece que somente
a inclusão em classes regulares não significa que
o portador de necessidades especiais terá um bom atendimento:
O simples acesso não resulta em beneficio de aprendizagem.
É necessário proporcionar apoio educacional especializado
para todos os alunos.
O valor por aluno de educação
especial repassado via Fundef (fundo federal que redistribui verbas
federais, estaduais e municipais para o ensino fundamental) aos
Estados e municípios não é muito superior ao
que é repassado por aluno do ensino fundamental regular.
O valor mínimo por aluno da 1ª à 4ª série
é de R$ 620,56. Para alunos da educação especial,
valor é R$ 664.
Tema divide especialistas
Os limites da inclusão de
alunos portadores de deficiência em classes regulares é
um tema que divide grupos que trabalham com essa população.
De um lado, há os que defendem
que é possível incluir, desde que isso seja feito
com qualidade, todos os estudantes em salas regulares, não
importando o tipo de deficiência. De outro, há os que
defendem que, em alguns casos, é melhor para a criança
estudar em uma classe ou escola especializada no atendimento àquele
tipo de deficiência.
Para o presidente da Federação
Nacional das Apaes, Luiz Alberto Silva, dependendo do tipo de deficiência,
a inclusão às vezes pode ser prejudicial para a criança.
Se essas crianças forem
para uma escola ruim e despreparada, certamente ficarão excluídas
da sociedade porque não terão seus limites respeitados
e não conseguirão acompanhar a turma. A escola especial
vai continuar existindo porque ela ajuda a incluir a pessoa na sociedade,
diz.
Essa posição não
é compartilhada por Claudia Werneck, presidente da ONG Escola
de Gente. Quando a gente trabalha a inclusão, trabalhamos
para que todos estejam na escola. Não acho que temos o direito
de escolher que crianças poderão exercer plenamente
sua cidadania e quais não, afirma ela.
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